Um jardim japonês (nihon teien) é parte integrante da tradição nas casas do Japão, nas proximidades de parques nas cidades, em templos budistas ou xintoístas e locais históricos, tais como antigos castelos. São jardins tradicionais que criam paisagens em idealizada miniatura, muitas vezes em um ambiente altamente abstrato e em uma forma estilizada.
Muitos dos mais famosos jardins japoneses do Ocidente, e também no próprio Japão, são os jardins Zen. Como a tradição da cerimônia do chá, os jardins japoneses constituíram uma característica bem peculiar, uma reminiscência do Japão feudal.
Os jardins japoneses se caracterizam não só por sua beleza e por se assemelharem a uma verdadeira paisagem em miniatura como também por sua harmonia e serenidade. Inspirados na estética dos jardins chineses, esses jardins eram criados especialmente para promover a meditação e a contemplação, pois trazem muita paz e uma forte conexão espiritual.
Muitas vezes, esses jardins são concebidos em espaços limitados e, por este motivo, os materiais usados e os elementos que o compõem são de suma importância. Há também os jardins criados pela nobreza que tinham a finalidade de recreação. Enfim, toda a composição do jardim depende do objetivo do criador, abrindo assim muitas possibilidades de estilo.
Os jardins japoneses são muitas vezes parte dos mosteiros budistas e santuários xintoístas e, portanto, profundamente enraizados na religião. A importância da natureza em crenças xintoístas se assemelha a elementos do jardim, como lagos, árvores e pedras: elementos budistas incluem montanhas, agrupamentos de pedra e mares.
Semelhante ao Bonsai, muitos elementos de jardins japoneses provavelmente foram importados da China e da Coréia durante o período Asuka (538-710 d.C.). Durante o período Heian (794-1185 d.C.) muitos padrões para a jardinagem japonesa contemporânea foram estabelecidos.
Os jardins são normalmente estabelecidos em torno de uma estrutura arquitetônica (como uma casa, templo ou pavilhão de chá) de onde o ambiente pode ser apreciado simplesmente abrindo, deslizando, as portas de papel. Deste modo, o interior flui livremente para o exterior. Além de uma estrutura principal, vários elementos podem ser vistos na maioria dos jardins:
- Água (mizu), muitas vezes sob a forma de um lago, lagoa ou riacho, ou outro, de forma simbólica (como chão de areia grossa revolvido com ancinho).
- Rochas (ishi), solitárias ou colocadas em grupos, estão profundamente enraizadas nas crenças xintoístas.
- Ilhas, dependendo do tamanho do jardim, estas podem variar de uma única rocha a ilhas reais. Nos jardins de paisagem secos, rochas são usadas para representar ilhas.
- Cenário emprestado (shakkei), usando montanhas circundantes no projeto do jardim.
- Areia ou seixos, aplicados para fazer os solos hospitaleiros aos espíritos.
- Pontes, pontes de madeira ou de pedra ou caminho de pedras para atravessar águas.
- Árvores, muitas vezes variantes de pinheiros muito antigos que retratam ancestralidade.
- Cercas ou paredes para delimitar o recinto.
- Ornamentos (tenkebutsu), como lanternas de pedra e bacias podem ser encontrados em muitos tamanhos e formas.
- Cachoeiras, sejam em cascatas únicas, múltiplas ou representadas em paisagens secas por pedras.
Estilos de jardim:
- Karesansui significa jardim de paisagem seco, é influenciado fortemente pelo Zen-budismo. Areia e rochas cuidadosamente arranjadas representam lagoas, córregos, ilhas e montanhas.
- Kaiyu-shiki (jardins de caminho) foram concebidos para desfrutar de um caminho em torno do jardim.
- Kanshoh (jardins de sentar), centrados em torno de uma residência dos quais a área pode ser apreciada.
Quioto é o lar de um número excepcionalmente grande de jardins japoneses, com destaques incluindo Ginkaku-ji, Konchi-in, Kennin-ji e Ninna-ji. Intimamente relacionados à jardinagem japonesa estão a poesia, a literatura e as cerimônias do chá.
Significados:
- Água (cascata, lagos e riachos):
Em um jardim japonês, a água está sempre presente e pode ser encontrada na forma de lagos, riachos e cascatas. Ela simboliza o ciclo da vida, do nascimento à morte. Muitas vezes, notamos a presença de carpas e elas também têm um significado especial: simbolizam sorte, prosperidade e persistência, devido à sua incrível habilidade de nadar contra a correnteza.
Ao criar uma cascata ou lago artificial é comum as pessoas se orientarem em relação ao sol já que ele é determinante para que os elementos escolhidos possam ser refletidos na água. Em jardins secos, a água é simbolizada através de cascalhos, areias ou pedras menores.
- Pedras, cascalho e areia:
Desde os tempos antigos, as pedras têm desempenhado um papel importante na cultura japonesa. No Xintoísmo, pedras grandes são adoradas como kami (divindade), enquanto que o cascalho era usado para designar terras sagradas em alguns santuários.
Pedras grandes podem ser usadas para representar ilhas, montanhas e colinas, onde os visitantes podem subir e admirar a vista panorâmica de todo o jardim. Pedras menores e cascalho são usados para fazer caminhos que representam a evolução do ser humano ao longo da vida ou podem ser usadas para representar lagoas, riachos, cascatas e até mares.
Pedras simbolizam resistência e por este motivo em alguns jardins japoneses podemos encontrar duas pedras de diferentes tamanhos representando o homem e a mulher. Rochas e pedras, assim como cascalho e areia, têm uma grande importância na cultura japonesa e compõem um dos elementos mais importantes na concepção de um jardim japonês.
- Lanternas:
Com o advento da cerimônia do chá, a lanterna tornou-se um elemento importante no design de um jardim japonês. Originalmente destinado para iluminar os caminhos e orientar os visitantes durante as comemorações noturnas, sua luz é considerada como a luz do conhecimento, iluminando a mente e limpando as nuvens de ignorância de quem caminha pelo jardim.
A principal lanterna usada é o Toro, também chamada de Yukimi-gata ou Ishidoro. São esculpidas em pedra e podem ter várias formas e tamanhos. São colocadas em locais cuidadosamente selecionados como ao lado de edifícios importantes, nas laterais de uma ponte e fazem um interessante contraste com os demais componentes naturais do jardim.
A lanterna de pedra consiste em cinco partes que representam os cinco elementos da cosmologia budista. A parte inferior que toca o chão representa a terra; a próxima seção representa a água; a luz representa o fogo, e a parte superior da lanterna que lembra um chapéu e a bolinha voltada para o céu, representam o ar e o espírito (alma).
- Pontes
As pontes normalmente são locais privilegiados em um jardim japonês, onde se pode relaxar, apreciar a beleza da paisagem, ver as carpas que nadam suavemente no lago e apreciar a suavidade da brisa. As pontes podem ser construídas de madeira, bambu, terra ou pedra. Também podem ser planas, em ziguezague, arredondadas ou levemente arqueadas.
As pontes podem apresentar-se sem pintura (ao natural) ou podem ser pintadas de vermelho, seguindo a tradição chinesa. Eles servem para atravessar lagos ou para chegar até uma ilha ou até mesmo leitos secos decorados com pedras. Além da estética tradicional e da harmonia com a natureza circundante, a ponte simboliza a transição do mortal para o sagrado.
- Plantas:
Os japoneses tem uma capacidade natural para interpretar o charme das plantas e flores, a fim de expressar as suas alegrias e dores. Sua comunhão com a natureza manifesta-se através de um simbolismo elaborado e as plantas são normalmente associadas com pensamentos em movimento e as formas de vida universais, além de trazer cor, vida, paz e aconchego.
O cuidado, a delicadeza no manejo e o seu interesse por esse tipo de arte tornou-se uma verdadeira paixão entre os japoneses. A forma como cuidam das plantas, moldando-as para dar origem a uma infinidade de formas lembra muito a forma de se cuidar de um bonsai. Além dos arbustos, algumas árvores são muito comuns em jardins japoneses tais como maple (acer), carvalho, bambu, cereja, e azaleias.
Nada em um jardim japonês está lá por acaso. Cada elemento cumpre sua função, seja como decoração ou por algum significado maior. Diferentes árvores, arbustos e flores são combinados como se fizessem parte de uma pintura. As flores são escolhidas com base em suas estações de floração. Além disso, algumas plantas, como o lótus e o pinheiro, tem significado sagrado.
O simbolismo da flor de lótus está na sua capacidade de enfrentar a escuridão e florescer tão limpa, imaculada e formosa. Já o pinheiro japonês é um símbolo da eternidade. Cerejeiras (Sakura) e ameixeiras (Ume) são símbolos da transitoriedade e da fragilidade da vida. Plantas sazonais ajudam a destacar o fluxo do tempo e a mudança interminável de estações.
Jardins de pedra:
Os jardins de pedra japoneses tornaram-se conhecidos no Ocidente como jardins Zen. O termo provavelmente foi usado pela primeira vez em 1935 pela escritora norte-americana Loraine Kuck em seu livro “100 Gardens of Kyoto” e, desde então, recebeu uma denominação em japonês (zen niwa). O termo jardins zen também foi adotado para jardins mais naturais que utilizam o estilo japonês.
Um jardim de pedras japonês (Karesansui), ou jardim Zen, é um campo raso contendo areia, cascalho, pedras e muitas vezes grama ou outros elementos naturais. Os principais elementos de um karesansui são pedras e areia, com o mar simbolizado não por água, mas por areia revolvida em desenhos que sugerem ondulações na água. As plantas são pouco importantes (e às vezes inexistentes) em muitos jardins karesansui. Muitas vezes, mas não sempre, os jardins saresansui são projetados para serem vistos de uma única perspectiva e as rochas são muitas vezes associadas com montanhas chinesas, recebendo seus nomes daí.
O jardim karesansui no Templo Ryōan-ji:
Existe um famoso jardim de pedras japonês no Templo Ryōan-ji em Kioto. Ryoanji é um templo que pertence à escola Myoshinji da Escola Rinzai de Zen, famosa por seus jardins Zen.
O jardim foi construído no estilo karesansui. Ele mede 30 metros na direção leste-oeste e dez metros na direção norte-sul. Não há árvores, apenas 15 rochas de formatos irregulares e tamanhos variáveis, algumas das quais, circundadas por musgos e organizadas em um leito de cascalho branco revolvido diariamente.
As pedras de vários tamanhos estão organizadas sobre pequenos seixos brancos e divididas em cinco grupos constituídos de cinco, dois, três, dois e três pedras. As 15 pedras existentes no jardim estão espalhadas de maneira que os visitantes só possam ver 14 delas por vez a partir de qualquer ângulo em que se olhe. De acordo com a lenda, apenas quando alguém obtém iluminação espiritual, como resultado de uma meditação Zen profunda, consegue ver a última pedra com seu olho do meio.
O jardim não é atribuído a nenhum autor em particular, ainda que se acredite que um artista chamado Soami (1480-1525), juntamente com Daisen-in, tenha desenhado e disposto o jardim. No entanto, os arquivos do templo são contraditórios, indicam mais alguns envolvidos e nas costas de uma das quinze pedras estão escritos os nomes de Kotaro e Hikojiro, que podem ser dois dos trabalhadores responsáveis pela atual construção.
Houve muitas tentativas de explicar a organização dos jardins Zen. Algumas delas são:
- O cascalho representa o oceano e as pedras, as ilhas do Japão;
- As pedras representam a mãe tigre com seus filhotes nadando em direção a um dragão;
- As pedras formam parte do kanji para coração ou mente.
Fontes: japaoemfoco.com, Bonsai Empire e Wikepedia
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